Quando falamos em discriminação, logo pensamos em racismo, machismo ou homofobia. Mas existe outra forma de preconceito tão nociva quanto — embora ainda pouco reconhecida pela sociedade: o capacitismo.

Trata-se da prática de inferiorizar, excluir ou limitar pessoas com deficiência, seja de forma explícita ou sutil. Ele está presente no cotidiano, muitas vezes disfarçado de cuidado ou até mesmo de elogio.

“O capacitismo é tão nocivo quanto qualquer outra forma de discriminação, mas ainda é tratado como invisível.”

O que é capacitismo?

O termo vem da ideia de que apenas quem possui determinadas “capacidades” merece reconhecimento ou direitos plenos.

Na prática, significa discriminar pessoas com deficiência por julgá-las menos aptas, menos valiosas ou incapazes de viver com autonomia.

O capacitismo pode ser:

Explícito: quando alguém ofende, recusa matrícula escolar, nega emprego ou exclui uma PcD de atividades sociais. Sutil: quando infantilizamos adultos, oferecemos ajuda sem consentimento ou exaltamos PcDs apenas por realizarem atividades cotidianas (“nossa, que exemplo de superação por conseguir trabalhar!”).

Exemplos no cotidiano

Infelizmente, o capacitismo está em todos os espaços:

Educação: escolas que recusam alunos com deficiência ou não oferecem apoio adequado. Trabalho: processos seletivos sem acessibilidade, empresas que contratam apenas para “cumprir a cota” (Lei nº 8.213/91). Saúde: profissionais despreparados para atender PcDs, muitas vezes ignorando suas necessidades específicas. Vida social: falta de acessibilidade em transporte, lazer e serviços públicos, que limita a autonomia e a participação social.

Base legal e garantias

O Brasil possui um arcabouço jurídico robusto para combater o capacitismo:

Constituição Federal: assegura a dignidade da pessoa humana e a igualdade. Convenção da ONU sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência: tem status constitucional desde 2009 (Decreto nº 6.949/2009). Lei Brasileira de Inclusão (Lei nº 13.146/2015): proíbe a discriminação e garante acessibilidade em todos os ambientes (físicos, digitais, sociais e institucionais).

Apesar disso, a distância entre a lei e a realidade cotidiana ainda é enorme.

Por que o capacitismo é uma violência invisível?

Porque muitas vezes é naturalizado.

Frases de “carinho” como “você é especial” ou “você é um herói por sair de casa” reforçam estereótipos. A sociedade tende a ver a deficiência como algo a ser “superado”, quando, na verdade, o que precisa ser superado são as barreiras impostas pelo meio físico, social e cultural.

O capacitismo, mesmo quando não intencional, restringe direitos, sufoca a autonomia e perpetua a exclusão.

Caminhos para combater o capacitismo

Combater essa forma de violência exige mudança de mentalidade e ação prática:

Nomear o problema: reconhecer e denunciar situações capacitistas. Educar para a inclusão: promover campanhas de conscientização em escolas, empresas e órgãos públicos. Dar voz às PcDs: ouvir suas vivências e garantir espaços de fala. Políticas públicas inclusivas: exigir acessibilidade, representatividade e participação social efetiva.

“Não basta não ser capacitista. É preciso lutar ativamente contra o capacitismo para construir uma sociedade verdadeiramente inclusiva.”

Conclusão

O capacitismo é estrutural, invisível para muitos e devastador para milhões de pessoas com deficiência. Combater essa forma de preconceito não é apenas uma questão de empatia — é uma questão de direitos humanos.

A transformação começa no reconhecimento, mas só se efetiva quando nos tornamos agentes ativos contra a exclusão.

Consuelo Prates é advogada, especialista em Direito das Pessoas com Deficiência e acessibilidade, diretora jurídica da Parada do Orgulho PcD Brasil. É mãe atípica, neurodivergente e ativista pelos direitos da inclusão.

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