Por Consuelo Prates – Advogada, ativista pelos direitos das pessoas com deficiência
Quando falamos em acessibilidade, a maioria das pessoas pensa imediatamente em rampas, elevadores, sinalização em braile ou softwares leitores de tela. Esses recursos são fundamentais, mas existe um obstáculo ainda mais poderoso – e muitas vezes invisível – que impede a plena participação social das pessoas com deficiência: as barreiras atitudinais.
Essas barreiras não são feitas de concreto ou de falta de tecnologia. São construídas por preconceito, desinformação e estereótipos. E, ao contrário das barreiras físicas, que podem ser resolvidas com investimento em infraestrutura, as barreiras atitudinais só caem com mudança de cultura, consciência e comportamento.
O que são barreiras atitudinais?
A Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (Lei nº 13.146/2015) define barreiras atitudinais como comportamentos, ações ou omissões que impeçam ou prejudiquem a participação social da pessoa com deficiência em igualdade de condições com as demais.
Em outras palavras, é quando a falta de informação, a visão assistencialista ou a descrença na capacidade da pessoa com deficiência cria um muro invisível que limita direitos e oportunidades.
Exemplos comuns incluem:
- Não contratar uma pessoa com deficiência por acreditar que ela não conseguirá desempenhar suas funções.
- Falar com o acompanhante em vez de falar diretamente com a própria pessoa com deficiência.
- Presumir incapacidade sem sequer perguntar quais adaptações seriam necessárias.
- Tratar a pessoa como “coitadinha” ou “herói” apenas por realizar atividades cotidianas.
Como identificar barreiras atitudinais no dia a dia
Muitas vezes, o capacitismo se manifesta de forma sutil, o que torna o reconhecimento dessas barreiras um passo essencial para combatê-las. Fique atento a situações como:
- Interrupção ou infantilização da fala de uma pessoa com deficiência.
- Elogios excessivos por tarefas comuns, como se fossem feitos “apesar da deficiência”.
- Falta de consulta sobre preferências, decisões ou necessidades.
- Isolamento em eventos ou reuniões, sem oferecer meios de participação efetiva.
- Ausência de adaptações simples porque “nunca tivemos alguém assim aqui antes”.
Reconhecer esses sinais é fundamental para agir e exigir mudanças.
Por que elas afetam mais do que a falta de infraestrutura?
Uma calçada sem rampa impede que uma pessoa com mobilidade reduzida passe – mas, se houver um vizinho disposto a ajudar temporariamente, ela pode chegar ao destino.
Já a barreira atitudinal é mais insidiosa: ela nega oportunidades antes mesmo de existir uma tentativa, perpetuando exclusão social e profissional.
Mesmo em espaços fisicamente acessíveis, a cultura de preconceito e infantilização continua afastando pessoas com deficiência de decisões, cargos e interações plenas.
Atitudes simples que mudam realidades
Combater barreiras atitudinais não exige grandes investimentos, mas sim consciência, empatia e vontade de mudar. Algumas ações práticas incluem:
- Perguntar antes de ajudar – e respeitar a resposta.
- Usar comunicação direta com a pessoa com deficiência.
- Oferecer oportunidades reais em processos seletivos.
- Capacitar equipes para atendimento inclusivo.
- Valorizar a autonomia e reconhecer habilidades, não limitações.
Primeiros passos para lutar contra barreiras atitudinais
- Informar-se sobre a LBI e sobre os direitos das pessoas com deficiência.
- Denunciar práticas discriminatórias a órgãos competentes, como Ministério Público ou Ouvidorias.
- Promover diálogos internos em empresas, escolas e comunidades sobre inclusão.
- Apoiar e amplificar vozes de pessoas com deficiência nas redes sociais e espaços públicos.
- Agir como aliado – não apenas observando, mas intervindo quando presenciar uma situação de capacitismo.
O papel do Direito e das políticas públicas
A LBI estabelece que todas as formas de barreira, incluindo as atitudinais, devem ser eliminadas para garantir o exercício pleno dos direitos. Isso significa que órgãos públicos, empresas e a sociedade civil têm a obrigação de criar ambientes inclusivos.
Políticas públicas como campanhas de conscientização, formação continuada de profissionais e fiscalização de práticas discriminatórias são essenciais. No entanto, a lei, sozinha, não transforma comportamentos: é preciso que a sociedade entenda que inclusão não é favor, é dever legal e compromisso ético.
Conclusão
As barreiras atitudinais são como muros invisíveis que bloqueiam a cidadania de milhões de brasileiros com deficiência. Destruí-las exige mais do que obras e tecnologia: exige mudança de mentalidade, abertura para aprender e coragem para rever práticas.
A verdadeira inclusão começa quando passamos a enxergar a pessoa antes da deficiência – e agimos para garantir que ela tenha acesso a todas as oportunidades, direitos e espaços que já lhe pertencem por lei.
Porque não basta não ser capacitista: é preciso lutar ativamente contra o capacitismo.
Consuelo Prates – Advogada, especialista em Direito da Pessoa com Deficiência e ativista por inclusão e acessibilidade.



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