Ilustração em tons suaves mostra uma mulher de costas, com longos cabelos escuros e asas abertas, vestindo um vestido lilás. Ela está de braços abertos diante de um céu em degradê que vai do azul ao pêssego, com o sol ao fundo. No topo da imagem, lê-se a frase em português: “Não querer caber, liberta.” A cena transmite leveza, liberdade e introspecção.

Li uma frase do escritor Carlos La Terza que me atravessou como poucas palavras conseguem:

“Voar parece exagero para todo pássaro que vive em cativeiro.”

Desde então, não consigo parar de pensar o quanto essa metáfora se aplica à vida de tantas pessoas neurodivergentes, com deficiência — e também às suas mães, cuidadoras e famílias.

Porque muitas vezes, o cativeiro não tem grades visíveis. Ele está nas normas sociais que excluem. Nos olhares atravessados. Nos julgamentos silenciosos. Nas escolas que não acolhem. Nos direitos negados. No diagnóstico que demora, no laudo exigido, no benefício cortado, no transporte inacessível.

O cativeiro está, muitas vezes, naquilo que a sociedade ainda não está disposta a ver.

E quando você é mãe atípica, neurodivergente e ainda advogada e ativista, como eu, essa consciência se torna ainda mais aguda. A cada obstáculo enfrentado, a cada barreira imposta, algo dentro de mim se recusa a se conformar. E é aí que começa a transformação.

Não querer caber, liberta.

Quantas vezes tentamos nos moldar, nos silenciar, nos encaixar para sermos aceitas? Para que nossos filhos sejam aceitos? Para cabermos em espaços que nunca foram pensados para nós?

Até que um dia a ficha cai: não querer caber é libertador.

A liberdade tem um preço — e às vezes, esse preço é a solidão, o estranhamento, o cansaço. Mas tem também uma recompensa imensa: você se reencontra. Você passa a se orgulhar da sua história, da sua luta, da sua força.

Você começa a construir novos espaços, em vez de mendigar lugar nos antigos.

A luta é um caminho sem volta

Ser mãe atípica te transforma. Ser neurodivergente te transforma. E quando essas duas experiências se encontram, não há mais retorno. É como se, ao expandir seus horizontes e sua consciência, você enxergasse o mundo sob uma nova lente — mais real, mais justa, mais urgente.

E aí, não dá mais para desver.

Não dá mais para aceitar o mínimo. Não dá mais para se calar diante da injustiça. Não dá mais para deixar que a dor se acumule sem virar movimento.

A dor que cura

Existe algo de profundamente humano — e revolucionário — em usar sua dor para curar a de outra pessoa.

Muitas vezes, é essa mesma dor que nos impulsiona a criar redes, projetos, leis, espaços de acolhimento. A transformar a própria vivência em instrumento de luta coletiva. A fazer do cansaço um motor de resistência.

A maternidade atípica me ensinou isso:
que a dor não é fraqueza — é potência.
Que o amor é político.
E que cuidar também é resistir.


E você?

Já sentiu que o mundo tentou te prender num cativeiro invisível?
Já teve medo de voar — até perceber que suas asas sempre estiveram ali?

Deixe seu comentário. Vamos seguir juntas, compartilhando histórias, construindo pontes e abrindo caminhos.
Porque, uma vez que a gente descobre a liberdade, não há mais como voltar.

Sobre a autora

Consuelo Prates é advogada, mãe atípica, neurodivergente e ativista pelos direitos das pessoas com deficiência. Especialista em Direito das Pessoas com Deficiência, Acessibilidade e Inclusão, atua em projetos de empoderamento de famílias atípicas, educação em direitos e promoção da justiça acessível. É diretora jurídica da Parada do Orgulho PcD Brasil e criadora do AcessaDireito — iniciativa que traduz o direito em uma linguagem inclusiva e compreensível, com foco na população com deficiência.

Instagram: @consueloprates
LinkedIn: linkedin.com/in/consueloprates

http://www.acessadireito.com

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