🧩 1. Quem sou eu?

Meu nome é Consuelo. Sou mulher, mãe, advogada, neurodivergente e ativista pelos direitos das pessoas com deficiência.

Mas antes de qualquer rótulo, sou apenas alguém que escolheu não se calar diante da injustiça.

Não sou heroína. Não quero ser chamada de guerreira.

Sou uma mãe — cansada, mas firme — que luta com todas as suas forças pelo filho. Uma mulher que exige respeito pela própria trajetória. Uma pessoa comum, tentando construir, a cada dia, um mundo onde a diferença não seja motivo de exclusão.

Quero passar por essa vida deixando alguma transformação. Nem que seja uma rachadura no sistema, uma semente de mudança, uma trilha para que outras pessoas não caminhem sozinhas.


👶 2. Maternidade atípica: o que ninguém me contou

Nada nos prepara para a maternidade atípica. Não há manual para os dias de luta silenciosa, nem roteiro que explique como amar alguém e, ao mesmo tempo, enfrentar o mundo por essa pessoa.

Ser mãe de uma pessoa com deficiência é viver em constante estado de alerta. É aprender a linguagem dos laudos, das terapias, das siglas e das esperas. É conhecer de perto a negligência institucional, os olhares de julgamento e a urgência de um cuidado que não pode esperar.

É também reconhecer a grandiosidade de um ser único: seu filho. Um universo inteiro de delicadeza, potência e resistência. Amar essa pessoa é despertar um gigante adormecido — uma fortaleza que se ergue por amor, mesmo quando o corpo está exausto.

Por fora, pareço forte. Por dentro, carrego doçura, medo e coragem. Mas que fique claro: não mexa com meu filho — ou enfrentará minha tempestade. Por ele, eu vou até o fim do mundo.

E no dia seguinte, recomeço tudo de novo. Porque amar, para uma mãe atípica, é também resistir.


3. Por que o ativismo?

Ao receber o diagnóstico do meu filho, fui forçada a abandonar o véu que me impedia de enxergar. Enxergar que a discriminação estava em toda parte. Que a sociedade me exigia encolher, me moldar, caber numa caixinha que nunca foi feita para mim — nem para ele. Foi o momento em que minhas amarras e correntes começaram a se romper.

Esse processo não foi leve. Foi intenso, profundo, repleto de dores enterradas e choros escondidos. Uma sensação constante de rasgar o próprio coração. Não foi fácil. Não é fácil. Mas sigo firme.

O amparo não veio de onde eu esperava. Vieram mãos estendidas de estranhos. De outras mães que me acolheram e cuidaram de mim quando eu mal dava conta de cuidar do meu filho. Mulheres que foram verdadeiros anjos — enviados pelos céus, pelo universo, ou seja lá qual for a sua fé (ou falta dela). Se você se identifica, sabe exatamente do que estou falando.

Quando percebi que o acesso aos direitos do meu filho — e de tantas outras crianças — era sistematicamente negado, entendi que não bastava ser mãe. Eu precisava ser ponte. Precisava ser eco.

Passei a estudar, denunciar, organizar, comunicar. Descobri que o silêncio institucional fere mais do que qualquer diagnóstico. E que lutar por equidade não é caridade, é justiça.

Meu ativismo nasceu da dor, mas floresceu no amor. No amor-próprio, no amor pelo meu filho — mas também no desejo de fazer mais. De transformar a minha existência em resistência e potência. De representar aquelas que (ainda) não conseguem se impor, aquelas que só conseguem existir, e isso já é tanto. Uma por todas, e todas por uma.

Obrigada a todas as mães, companheiras de jornada, que com uma palavra, um olhar ou um abraço estiveram comigo. Vocês confortaram e diminuíram uma dor que parecia impossível de suportar.


⚖️ 4. Lutar contra o preconceito: o que está em jogo

Capacitismo não é só um nome difícil. É o nome do preconceito que marginaliza, silencia e exclui quem vive e existe com deficiência.

Ele está nas escolas que negam apoio, nos atendimentos que não ouvem, nos ambientes que não adaptam, nas leis que não se cumprem, nas frases “é só uma fase”, “ele precisa de limites”, “você não é firme o suficiente” ou ainda “se fosse meu filho…” — como se o problema fosse sempre a mãe, nunca a exclusão.

Lutar contra o capacitismo é lutar por uma sociedade que acolhe ao invés de corrigir. Que adapta ao invés de excluir. Que ouve ao invés de julgar. Que acolhe ao invés de afastar.

Porque enquanto houver exclusão, o direito à existência plena ainda não foi conquistado.


🧵 5. Como eu quero ser lembrada

Quero ser lembrada como quem abriu caminhos.

Como quem transformou dor em verbo, verbo em ação, ação em mudança.

Como uma mãe que não aceitou o “você não vai mudar o mundo”, o “a vida é dura” ou o “as coisas são como são”. Porque eu acredito que sim — o mundo pode e DEVE mudar quando decidimos não aceitar o inaceitável.

🧵 5. Como eu quero ser lembrada

Como uma advogada que acreditou que o Direito pode — e deve — ser acessível. Porque o Direito é de todos, todas e todes. E não me importa se o mundo não está preparado, se desafia regras de gramática, ou se incomoda quem se recusa a compreender: respeitar o que cada pessoa é, em sua essência, é um ato de dignidade e humanidade.

Como uma mulher que foi semente, mesmo quando o terreno era árido. Alguém que não se conformou e luta todos os dias por um mundo melhor — não só para mim e meu filho, mas para todas as pessoas.


✍️ Nota final:

Essa sou eu.
Não perfeita. Mas inteira.
Múltipla, intensa, persistente.
E absolutamente comprometida em tornar o mundo mais justo — não só para o meu filho, mas para todos os filhos que ainda não foram ouvidos.

Consuelo Prates
Mulher, mãe, advogada, neurodivergente, ativista.
Um equilíbrio entre o concreto e o sonhado — pé no chão e olhos no horizonte.

Reflexões de quem transforma vivência em voz, e amor em luta por inclusão.

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